Pedaços de mim

 

nemo-e-o-pai

Filho de peixe sabe nadar.

Bicicleta nunca foi o meu forte. Acho que só aprendi a manobrar tal veículo quando já tinha 10 anos. Mas aprendi a nadar bem cedo. Nem me recordo quando, para dizer a verdade. Não me lembro de não saber nadar.

Não sou filho de peixe. Mas filho do mar certamente. Todos na minha família são pescadores, mariscadores, ou têm algum negócio ligado ao mar. Segundo consta na história (ou no meu primeiro album de fotografias e curiosidades), a primeira gargalhada do Paulinho foi quando o peixe escorregou das mãos da avó enquanto ela o amanhava. Cenas.sobre 1

Tive uma infância bastante feliz. Disso tenho a certeza. Ainda assim, não posso dizer que me recordo propriamente de muitas coisas de quando era miúdo. Não me recordo praticamente do que fazia na escola primária. Sei que tinha boas notas. Mas não me recordo de nada. Não sei se aquela malta que se recorda dos dias até ao mais ínfimo pormenor realmente se recorda de alguma coisa ou se apenas acha que se recorda. Memórias falsas existem.

Falando honestamente, eu às vezes era “uma bela zébra”, como se diz na minha terra. Por outras palavras, conseguia ser um ser insuportável. Lembro-me de fazer umas valentes birras e atirar-me para o chão no meio da rua quando queria alguma coisa. Especialmente brinquedos. Não censuro a minha mãe por me dar umas valentes caldeiradas ocasionalmente. Cenas.

sobre 2O meu pai é mariscador. Sempre foi. E sempre o vai ser. Da boca dele ouve-se coisas como – “Nunca mais me sai o Euromilhões para ir de helicóptero para o viveiro.” O meu pai gosta do que faz. Para quem não sabe, mariscador é aquele que faz vida da apanha do marisco. O meu velhote, como muito boa gente na minha zona, é viveirista. Quer isto dizer que possui viveiros de produção de amêijoas e ostras (ou carcanholas, como se diz lá na ilha).

sobre 3

A minha mãe é dona de casa. Quando eu era pequenote, ela e a minha Tia Mena (que infelizmente já não está por cá) eram donas de uma loja de roupa. A Casinha. Era o nome da loja. Mais tarde A Casinha tornou-se o Ponto de Passagem, uma cafeteria. A dona era a minha tia, mas a minha mãe era empregada de balcão. Trabalhou lá por muitos anos. Os meus colegas de escola costumavam dizer que eu tinha “bué da sorte” porque lá no café vendiam-se muitas gomas. Eu nunca gostei de gomas.

sobre 4Lá em casa nunca faltou peixe ou marisco. Fácil de deduzir. Talvez por isso um dos meus pratos favoritos era sardinhas assadas. Era isso e cozido à portuguesa. Gostava dos dois de igual forma. Mas sempre fui mais um moço de peixe. Aliás, sempre fui mais um moço de comer bem. Por isso é que passei do “Paulinho cara de osga” ao “Paulinho gordinho”. Cenas.

Sou filho da Ilha. Isso é certo. O meu coração pertence à Ilha da Culatra, onde fui criado e onde tenho toda a minha família. Mas seria injusto dizer que não tenho também uma costela de olhanense. Foi em Olhão (entre outras cidades) que estudei. É em Olhão que tenho grande parte dos meus amigos. Se bem que muitos já por lá não se encontram. A crise levou muitos a abandonar o país. Tal como eu.sobre 5

Lá na Ilha não há carros. A única forma de lá chegar é pelo mar, sendo que praticamente todo o ilhéu possui barco próprio. Existem também várias carreiras entre Olhão e as Ilhas. Muitos ilhéus utilizam diariamente este meio de transporte, uns para trabalhar, outros para estudar, muitos somente para tratar de compras ou outros afazeres na cidade. A carreira das 07h45 da Culatra para Olhão vai normalmente cheia. É uma rotina dura durante o inverno. Engane-se quem pensa que no Algarve é verão o ano inteiro.

Sempre fui um bom aluno na escola. Nunca fui moço de estudar. Nunca fui um marrão. Mas nunca tive dificuldades no meu percurso escolar. Sempre achei a escola bastante fácil. Na minha escola, o difícil para muitos nem era a matéria escolar, era mesmo o ambiente escolar. É que eu fiz o ensino básico numa escola altamente bem classificada nos quadros de marginalidade e delinquência juvenil. A escola EB 23 Dr. Alberto Iria de Olhão, também conhecida por C+S ou Escola da Cadeia (isto porque era a paredes meias com o estabelecimento prisional de Olhão). Boa malta do meu tempo. A maior parte está presa, morta ou ligada ao crime e às drogas.

Era muito novinho quando descobri o rock. Muito por influência de amigos. Em especial do Pedro Rias. Quando eu era miúdo não havia internet para fazer download de mp3, o vinil já estava morto e tão pouco havia muita malta com aparelhagem csobre 6om leitor de CD’s. Isso veio um pouco mais tarde. A moda na altura eram mesmo as cassetes. Todos os verões eu esperava que o Pedro viesse de férias para a Ilha para poder ouvir as novidades do mundo do rock. Quando tinha 12 anos o meu pai ofereceu-me uma aparelhagem com leitor de CD’s. O primeiro disco que comprei foi o Anarkophobia dos Ratos de Porão. Uns meses mais tarde comprei um walkman CD e a minha lista de CD’s começou a aumentar. Ainda assim, continuei a ouvir as minhas cassetes. Havia muita coisa assim mais underground difícil de arranjar em CD. Com o aparecimento da internet ADSL tornou-se bem mais fácil ouvir boa música. Software como o Soulseek e o mIRC facilitavam mais ainda o processo. Actualmente a malta só utiliza Spotify e muita gente mais nova nem sabe do que é que eu estou a falar. Nada contra o Spotify. Eu próprio sou assinante e é uma excelente plataforma. Mas confesso que nunca mais conheci uma banda tão profundamente como naquela altura em que comprava o álbum original em formato CD ou cassete. É que na escassez, espreme-se o sumo até à última gota. Actualmente tenho a certeza que muito pouca gente ouve um álbum completo. Cenas.

Quando entrei para o ensino secundário já tinha um forte gosto pela escrita e até já me aventurava em prosas e versos de autoria própria. Mas a verdade é que só entrei para o agrupamento de Línguas e Humanidades para fugir à matemática. Durante toda a minha infância pensei em esobre 7studar biologia. Ou algo relacionado com animais. Eu queria ser o próximo David Attenborough. Era isso. A meu ver ele era biólogo. E era esse o trabalho de um biólogo. Actualmente sei que poderia ter seguido os estudos no agrupamento de Científico-Natural, se me tivesse esforçado minimamente. E também sei que o David Attenborough não era biólogo. Verdade seja dita, eu nem sequer terminei os estudos em Línguas e Humanidades. A verdade é que tomar uma decisão que vai afectar o teu percurso escolar com 14 anos é estúpido. Ainda mais considerando que nos próximos anos da tua vida vais ter as tuas primeiras experiências sexuais, vais conhecer o álcool e outras substâncias ilícitas e provavelmente vais ter algum desgosto amoroso. E talvez tenha sido por isso tudo que fui parar à Escola de Hotelaria e Turismo do Algarve, onde estudei cozinha e gestão hoteleira. Mais uma vez terminei os dois cursos com óptimas notas escolares e muito pouco esforço. Se é que posso dizer que me esforcei de todo.

Por estas alturas fiz uma road trip com uns amigos. No final da viagem olhei para uma foto de grupo. Olhei para os abdominais do Daniel e para a barrigona do Páwinh (eu tenho problemas de dicção com a letra “L”). Essa foto fez-me começar a fazer exercício físico. E a minha adicção pelo desporto nunca mais parou.

Uns anos mais tarde, já a trabalhar como cozinheiro há uns tempos, o fantasma da literatura voltou a assombrar-me. Arrependimento do que devia ter feito. Um sentimento que me tem assombrado praticamente por toda a minha vida. Sempre fui um sujeito muito melancólico e pouco objectivo. Talvez não me identifique mesmo com a matemática afinal. Durante um ano estudei e preparei-me para o exame nacional de língua portuguesa. O meu objectivo era quase tanto ambicioso como impossível. Pelas minhas contas, precisava de tirar um 19 (de uma escala de 0 a 20) no exame para fazer média para entrar para o curso de Ciências da Comunicação na Universidade Nova. Acabei por me ficar pelo 16,9 que me assegurou a média de entrada no ISCSP e, aparentemente, a melhor nota desse ano na região do Algarve. Nada mau para um ex-aluno. Um obrigado à minha prima Cátia que tornou isso possível.

É verdade. Tinha mesmo entrado para a universidade. Uma aventura curta, infelizmente. As coisas não correram como o esperado, especialmente a nível financeiro e, depois de perceber que não ia ter direito a bolsa escolar, resolvi desistir. Não era justo dar esse encargo aos meus pais.sobre 8

Foi nesse ano que “conheci” a Joana. É estúpido dizer que a conheci, tendo em conta que fomos criados no mesmo lugar e é praticamente impossível não conhecer alguém na Ilha da Culatra. Mas a verdade é que nunca fomos propriamente amigos. Ou melhor, ela nunca gostou muito de mim. Mas, apesar de eu ser um perfeccionista tacticista que odeia o inesperado, a verdade é que o inesperado é muitas vezes o melhor que a vida tem para oferecer. Cenas.

Eu e a Joana temos praticamente vivido juntos desde então. Muitas alegrias, algumas tristezas, assim como é a vida. Por bem ou por mal, acabámos por vir parar à Noruega, onde vivemos actualmente. Ela trabalha como engenheira ortoprotésica, eu trabalho como cozinheiro, como, aliás, sempre trabalhei. Tirei um curso de personal trainer cá por estas bandas. Gostava de trabalhar nisso, mas até agora ainda não aconteceu.

Esta publicação não é sobre comida. Esta publicação não é sobre nutrição. Esta publicação não é sobre veganismo. Esta publicação é sobre escolhas. Não cresci a comer alfaces. Cresci a comer peixe e marisco. Cresci a comer cozido à portuguesa e sardinha assada. A barrar o pão com manteiga. A comer bifanas para matar a ressaca. A comer vaca na chapa no restaurante chinês. A comer entremeada e frango assado com salada à do Rafael. A comer sabe-se lá o quê à do Mata-mulas porque era barato.

Não existem razões. Existem desculpas.

Da próxima vez que me disseres que gostas demasiado de carne para deixar de comê-la, pensa que pareces um idiota. Da próxima vez que me apresentares um argumento sensacional para comer carne, pensa que já o ouvi umas 15 vezes antes. E, também, que pareces um idiota. Da próxima vez que me perguntares – “Então e chocolate? Podes comer?”. Lembra-te que a minha resposta poderá ser – “Não, eu sou alérgico a tudo menos alfaces.”. E que pareces um idiota.

 

7 thoughts on “Pedaços de mim

  1. Responder
    Joana - 20 Outubro, 2016

    Obrigado por seres o meu Páwinh 🙂
    És um ser cheio de virtudes!
    Podes tirar uma licenciatura, uma pós-graduação, um mestrado, um doutoramento, os canudos que quiseres! Para que serve isso tudo se nāo souberes ensinar? Mestre é aquele que aprende e sabe transmitir sabedoria aos menos sábios..é aquele que quer sempre aprender mais e mais…é aquele que procura respostas quando tem duvidas! É aquele que não cruza os braços e diz “eu já aprendi tudo”!
    Tu és esse Mestre para mim! E serás para os nossos filhos! Estou segura disso! Amo-te

  2. Responder
    sara (real food rebel) - 1 Junho, 2017

    leitura muito interessante e divertida como sempre! somos da mesma geração walkman e discman eheh nasceste em que ano?
    vocês são muito amorosos tudo de bom, um grande beijinho para os dois

    1. Responder
      Paulo Buchinho - 1 Junho, 2017

      Olá Sara 🙂

      Eu sou dessa grandiosa geração de 87. Já sou um trintão xD
      A Joana é da geração de malta que quase que ia pertencendo à grandiosa geração de 87, mas que enganaram-se e nasceram um ano mais tarde.
      Obrigado por comentares e por nos seguires 😀

      Beijinhos meus e da Joana

  3. Responder
    Ligia - 2 Agosto, 2017

    Só hoje li este post. És grande, Paulinho! 🙂 Boas férias, muitos miminhos e sol. ***

    1. Responder
      Paulo Buchinho - 4 Agosto, 2017

      Obrigado professora 🙂

      Fico muito contente por saber que acompanha o blogue 🙂

      Beijinhos!

  4. Responder
    Diana Eugenio - 4 Dezembro, 2017

    Adoro o teu blog. Farto-me de rir! ahah

    Grande trabalho, parabéns! 🙂

    1. Responder
      Paulo Buchinho - 6 Dezembro, 2017

      Obrigado prima xD

      Beijinho*

Deixar uma resposta